Educador e escritor Hamilton Werneck


Tão necessária para a formação do cidadão quanto para a construção de uma nação forte e competitiva, a educação é uma das grandes vulnerabilidades do Brasil. Algumas das queixas de educadores e demais especialistas do setor são que faltam investimentos e uma dose de boa vontade por parte dos governantes para solucionar os problemas relacionados a esta. Mas, o que pode ser feito para mudar o panorama atual? O Blog Carvalho News decidiu ouvir o pedagogo e escritor Hamilton Werneck, autor dos livros “Se você finge que ensina, eu finjo que aprendo”, “Professor, acredite em si mesmo”, entre outros, que falou sobre os desafios que a educação brasileira precisa enfrentar o mais rápido possível, para que possamos evoluir. Boa leitura!

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Blog Carvalho News – Como você avalia a educação atual brasileira?

Hamilton Werneck – Nossa educação vive num estado de contradição. Ela avança e retrocede. Seguia para um lado de criatividade, mas com a Reforma do Ensino Médio a impressão que houve um retrocesso. A educação está voltando para uma visão tecnicista e ainda por cima com uma série de projetos que não tem sentido dentro do país. Como, por exemplo, o Projeto Escola Sem Partido. As pessoas parecem que não querem que a formação seja cidadã e faça o indivíduo pensar. Então não pode discutir, tem que aprender conteúdos como se não fossem absolutamente neutros… Não se pode discutir nada. Então isso aí é uma meta que forma um idiota, que não sirva para nada. Ele vai ser, quando muito se aprender, um monstrinho treinado.

CN – Qual sua opinião sobre as políticas públicas em educação na atualidade brasileira?

Hamilton Werneck
Professor Hamilton Werneck Foto: Érica Castro

Werneck – Como a situação está no momento, elas atendem o mínimo necessário, mas não atende ao investimento mínimo necessário que é exigido para que o país atinja um nível de desenvolvimento. Nenhuma nação do mundo conseguiu um nível muito alto de desenvolvimento sem educação. O que faz a pessoa não jogar papel na rua, manter o lixo protegido, não manter recipientes com água que podem fazer proliferar mosquitos que transmitam doenças é uma questão de educação. O Brasil está adotando uma educação voltada para o quadro da repetição. E isso é simplesmente definir que nós estamos estagnando a população num nível de subdesenvolvimento.

CN – Quais os pontos positivos e os negativos nas avaliações massivas (Ideb, Prova Brasil, Enem e Enade)?

Werneck – Há um crescimento gradativo muito lento, mas há um crescimento da Educação Básica. Onde cresce mais e onde cresce menos? Cresce mais onde há dedicação, onde o município trabalha a formação de seus professores; onde o município procura dentro das suas circunstâncias fazer o melhor. Inclusive, desenvolvendo a capacidade do aluno pensar. Funciona pior onde não há condições de trabalho, o salário do profissional está atrasado, onde não há dedicação, onde o município não coloca a educação como um elemento básico e fundamental. A situação está pior no Ensino Médio, que acabou se tornando enciclopédico, com uma quantidade de assuntos muito grande e pouca possibilidade de escolha por parte da pessoa. Aí entra a reforma aprovada, que permite escolhas mas diminui em várias áreas do saber disciplinas básicas que ajudam a pensar, tentando escapar de ideologismos. São o caso de Sociologia, Filosofia e Artes que foram reduzidas no currículo.

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Hamilton-Werneck- Foto: divulgação

CN – Falando sobre indicadores de uma Educação Básica de qualidade, quais as utopias e quais as realidades?

Werneck – Uma das utopias é procurarmos ter um ensino integral, para isso precisamos ter um espaço maior, professorado preparado para esse fim e disponibilidade de verba para sustentar essa despesa. É uma utopia que estava prevista com uma quantidade de percentual do PIB, a ser aplicado até 2024, quando o Plano Nacional de Educação completaria dez anos. Porém, com a reforma econômica que tivemos e as últimas Pecs aprovadas, tudo foi eliminado. Ou seja, a utopia fica mais na prática ela não conseguira ser efetivada. A outra questão, é que para ter um trabalho bom de educação, tem de haver um professor com capacidade de trabalhar bem com os alunos. Só que com uma certa idade o professor não aguenta mais trabalhar. E com a nossa perspectiva de aposentadoria e tempo de contribuição, sem considerar a educação como algo especial, nós teremos professores que depois de um determinado tempo não conseguirão ter bom desempenho diante de turmas grandes e isso é muito ruim para educação. Acho que quando pensaram na aposentadoria geral no Brasil, não lembraram que determinados trabalhos exigem muito esforço físico muito grande e que não consegue ser executado por uma pessoa depois de uma certa idade.

CN – Os órgãos de controle social em educação desempenham bem suas atribuições?

Werneck – Não. Eles não controlam a ponta do sistema. Não controlam a sala de aula, não sabem o que o professor esta fazendo em sala de aula. Se a aula é dada de modo que o aluno compreenda o assunto ou não. Há uma falha nas coordenações pedagógicas e nas supervisões. Supervisionam demais questões legais e de menos questões táticas didáticas e pedagógicas.

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CN – Quais as suas perspectivas em relação ao futuro da educação, para os próximos dez anos?

Werneck – Se manter o panorama atual, vejo uma dificuldade para termos tempo integral. Não vamos conseguir atender a emenda 20 da Constituição Federal de 1988, pois não haverá verba para isso. Significa que nós podemos perder uma geração que não terá tempo integral. Que ficará um tempo na escola e outro na rua, servindo a outras coisas escusas, que podem ser a prostituição infantil, drogas. Com o está o quadro, não vejo como aumentar de maneira significativa o salario do professor e suas condições de trabalho, tornando a carreira do magistério atraente. Não teremos professores capazes de ensinar e os alunos aprenderem. Vamos ter gente cansada, despreparada e desanimada.

CN – O que pode ser feito para mudar esse panorama?

Werneck – A mudança da visão política educacional que está altamente atrasada. Não se está pensando na formação do professor e na melhoria das condições do trabalho. Educação não é algo prioritário. Um país para se tornar uma potência precisa de cinco condições. O Brasil tem três, que são extensão territorial, água suficiente e matéria prima. Nos faltando uma boa saúde e boa educação. Se essa duas foram bem cuidadas podemos progredir. Qual o capitalismo queremos?  Caminhar na direção que irá nos tornar um país subdesenvolvido ou capitalismo semelhante ao da Austrália? Não temos que ter uma mão de obra barata por que não estuda. Temos que possuir uma mão de obra cara por ser bem preparada, que promova um grande ganho permitindo uma melhor distribuição de renda.

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