O dublador Raphael Rossatto


Ele tem 30 anos, é ator, cantor (um dos fundadores da banda de pop rock Jack B) e dublador e sua voz é inconfundível. Estamos falando do carioca Raphael Rossatto, que ficou conhecido por emprestar a voz para Flynn Rider (José Bezerra) nas canções do Filme “Enrolados” da Disney.  Ele também foi a voz de Kristoff em “Frozen”, de Peter Quill, o Senhor das Estrelas (Chris Pratt) nos filmes Guardiões da Galáxia, Cisco Ramón em “The Flash”, e muitos outros personagens. Rossatto recebeu gentilmente a reportagem do Blog Carvalho News para falar do “mágico” mundo da dublagem.

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Raphael Rossatto Fotos: divulgação

 

Carvalho News – O que o levou a se tornar um dublador?

Raphael Rossatto – Sou de família circense, sempre atuei como palhaço desde criança, acrobacias, apresentava o espetáculo junto com meu pai, entã aprendi a usar e colocar a minha voz desde cedo. Em duas ocasiões me abordaram perguntando se eu era dublador. Fiquei curioso e descobri um curso de dublagem perto de onde estava trabalhando naquela época, o Vamos fazer arte, do meu querido Cláudio Galvan. Apareci para fazer uma aula de experiência com a minha mestra na dublagem, Mabel Cesar, e me apaixonei, a partir dali eu soube que era uma coisa que queria fazer pra sempre, é apaixonante.

CN – Como foi o início de sua carreira?

Raphael Rossatto– Costumo dizer que dei muita sorte, pois tudo aconteceu muito rápido, o que não ocorre normalmente nesse ramo.O Cláudio Galvan, assim que terminei o curso de dublagem, me convidou para ir com ele em alguns estúdios de dublagem para conhecer como as coisas funcionavam na prática e me apresentar. O último que visitei foi a Delart, lembro que nesse dia estavam dublando Lost, quem estava dirigindo era o Mário Jorge, e lá na sala estava presente outro mestre, Garcia Junior, que na época era o responsável pela dublagem da Disney Brasil. O Claudio me apresentou, disse que havia terminado o curso de dublagem, que além de ator eu também era cantor e que estava pronto pra começar a trabalhar. O Garcia pediu algumas gravações minhas cantando, pois sempre estavam precisando novos cantores para gravar as canções, e por sorte eu tinha algumas trilhas gravadas. Enviei e, pouco tempo depois, ele me convidou para fazer o teste para uma canção de um longa da Disney, Enrolados. Fiz e fui aprovado, logo em seguida também me convidou para fazer o teste para dublar o protagonista, Flynn Rider. Fiz e passei também. Fiquei muito feliz pois meu primeiro trabalho seria cantando e dublando o protagonista de um filme da Disney. Mas pouco tempo antes de dublar, chegou a notícia de que o marketing da Disney tinha escolhido o Luciano Huck para dublar o personagem, mas que eu ainda gravaria as canções. Foi assim que entrei nesse universo mágico, a partir dali o Garcia me indicou para o Manolo Rey e logo comecei a dublar com ele outra série da Disney chamada Shake it up, e foram me indicando e em pouco tempo estava dublando em quase todos os estúdios e fazendo meus primeiros protagonistas.

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CN – Para quais personagens já emprestou sua voz?

Raphael Rossatto – Vou citar alguns, pois são muitos ao longo de sete anos de dublagem. Em filmes dublei o Augustus Waters em A culpa é das estrelas, recentemente o Will Traynor em Como eu era antes de você, Peter Quill (Senhor das estrelas) em Guardiões da Galáxia, Óh em Cada um na sua casa, Adam em Se eu Ficar, Alex em Simplesmente acontece, Flynn Rider (cantando) em Enrolados, Kristoff em Frozen, Guy em Os Croods, Finnick Odair em Jogos Vorazes, Cavaleiro Solitário em O Cavaleiro Solitário, Owen em Jurassic World… e em séries, dublo o Ezra Fitz em Pretty Little Liars, Aethewulf em Vikings, Cisco Ramón em The Flash, Ty Rux em Dinotrux, sou a nova voz do Pokedéx em Pokemón, Hendrickson em Nanatsu no Taizai, Kieran na série Scream, Danny na nova série da Sony The Catch, Dave Rose em Happy endings, e tem mais, rs

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Rossatto é a voz de Daniel Arenas de “A Gata” e “Coração Indomável”, do SBT.

CN –  A dublagem brasileira é uma das melhores do mundo?

Rossatto – Sempre foi considerada, e merecidamente. Temos os melhores profissionais nesse ramo e isso é indiscutível. Em vários casos, nem consigo mais ver o filme legendado, pois dependendo de quem seja o ator, a voz e a interpretação na dublagem ficam muito melhores e mais engraçadas que o original.

CN – Como você avalia o mercado de dublagem no Brasil, nos dias atuais?

Rossatto – A dublagem vem crescendo consideravelmente. Hoje em dia,  quase todos os produtos são dublados, a demanda é enorme, e como cada vez mais a dublagem tem se tornado notícia. É natural que a procura por esse mercado tenha crescido também, mas junto com isso aumenta também a picaretagem, como em qualquer ramo. Muita gente desqualificada abrindo cursos, iludindo e preparando mal os novos dubladores, muitos estúdios novos abrindo em vários cantos do país, o que não seria problema se tivesse gente competente a frente disso, o que não é o caso. Estúdios picaretas que não pagam bem os diretores e por isso colocam qualquer um que aceite ganhar migalhas pra trabalhar. Essas coisas enfraquecem o nosso trabalho, com diretores ruins, não adianta trabalhar com dubladores bons, o trabalho fica comprometido, Nós também não aceitamos trabalhar nessas condições, o que levam os estúdios ruins, com diretores ruins a procurar dubladores novos, desinformados e despreparados, que pela gana e tesão de começar a trabalhar, aceitam qualquer coisa. A posição do diretor é muito séria, ele não tem só que dizer se a fala ficou curta ou longa, ele precisa ter muito conhecimento, de línguas, de cultura geral, precisa conhecer bem os dubladores e as vozes com quem vai trabalhar, pois muitas coisas são mudadas na hora em que gravamos, existem termos, coisas que desconhecemos, e o diretor precisa ter inteligência, sagacidade e conhecimento para dar uma solução eficaz quando encontramos esse tipo de problemas. Queremos muito encontrar uma forma de combater esse tipo de coisa, pois realmente estão sucateando a nossa profissão, e isso não é bom para ninguém, nem para nós que vivemos disso e levamos muito a sério, e muito menos pro consumidor, que gosta e valoriza nosso trabalho.

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Em um momento de descontração Foto: arquivo pessoal

CN – Como sua “herança” circense o auxilia na composição de seus personagens?

Rossatto  – Nasci e morei no circo até meus 20 anos. A vivência desde criança, a forma como aprendi a lidar com o público, e o jeito lúdico e desprendido como atuamos lá me prepararam muito para ser quem sou hoje, em todos os aspectos, no teatro, na dublagem, na música e na vida. Assim como a dublagem, o circo é uma grande escola, temos momentos bons e muitos ruins, passamos perrengues atrás de perrengues, é uma vida extremamente gostosa, mas muito sacrificante. Não tenho dúvidas de que se hoje gostam do meu trabalho como ator e dublador, eu devo muito ao circo por ter me preparado dessa forma. Acho que é mais fácil encarar os desafios impostos hoje, pessoais ou profissionais, por ter enfrentado tantos outros a vida inteira.