Vereadora Ireuda Silva faz análise sobre consciência negra


O Dia da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro. A data faz referência ao dia da morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo de Palmares, que lutou para preservar o modo de vida dos africanos escravizados que conseguiam fugir do cativeiro. A comemoração sugere uma reflexão sobre a situação desta parte da população, bem como, sobre a realidade do mundo nos tempos atuais e do nosso comportamento em relação a esse panorama. Conversamos com a empresária, palestrante, ativista social e vereadora da cidade de Salvador (BA), Ireuda Silva. Crista evangélica e mãe, Ireuda faz uma análise objetiva sobre os desafios que a população negra enfrenta, bem como as possíveis estratégias para reverter esse panorama.

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Vereadora Ireuda Silva Foto: Leone Serafim

Carvalho News – O que o Dia da Consciência Negra simboliza para a senhora?

Ireuda Silva – O Dia da Consciência Negra é um dia de reflexão que simboliza as inúmeras conquistas que precisamos ter em busca de igualdade, pois diariamente ainda somos vítimas de racismo. Enquanto formos os cidadãos mais afetados pelas desigualdades do Brasil, precisaremos de um dia para lembrar que a escravidão acabou há mais de 100 anos e já está mais do que na hora de sermos totalmente integrados à sociedade brasileira.

CN – A população negra brasileira tem motivos para comemorar nesta data?

Ireuda Silva – Acredito que não pois ainda são os negros que diariamente aparecem nos noticiários sendo vítimas de bala perdida, desemprego, racismo, dificuldade em atendimento na área da saúde, e mesmo após 100 anos da abolição da escravatura a população negra ainda sofre com descaso.

CN – O que fazer para resgatar a autoestima da população negra brasileira?

Ireuda Slva –  Além de ocorrer a efetivação das políticas públicas, se faz necessário reconhecer a usurpação durante todo período de escravidão, porque ainda somos a minoria nas faculdades e em espaço de poder.

CN – Como é ser negro no Brasil?

Ireuda Silva – Ser negro no Brasil é sofrer diariamente com o preconceito que infelizmente está presente em nosso cotidiano independentemente de seu cargo ou posição social. É receber um olhar de desconfiança nos shoppings, nas lojas de grife, em diversos lugares que infelizmente parte da sociedade ainda acha que o negro não se pode fazer presente.

CN – Alguns negros costumam afirmar que negros não são unidos. Que negro não vota em negro. Que negro que possui canal no Youtube não tem muitos negros inscritos etc. Isso é verdade? E. em caso de positivo, a que isso se deve? É possível modificar essa realidade?

Ireuda Silva – Infelizmente é preciso admitir! Acredito que justamente pela opressão vivida pela “raça” temos esse reflexo, o que não deixa de ser negativo, onde um número de negros ainda não entende a grande necessidade dessa real união para se obter o devido crescimento, uma ascensão em todos os campos.

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Maria Felipa de Oliveira

CN – Muito tem se falado sobre o Governo de Jair Bolsonaro. O que os negros podem esperar desta gestão?

Ireuda Silva – Acredito que o atual Presidente deve realizar uma gestão pensando em todos os brasileiros e com olhar especial para a reparação da população negra que ainda necessita de uma política pública de reparação, haja vista que viveram séculos como pessoas esquecidas pelo poder público.

 

CN – Jair Bolsonaro é um político que sempre “chocou” as pessoas com declarações homofóbicas, preconceituosas, racistas e misóginas. Entretanto, ainda presenciamos negros, mulheres, gays, lésbicas, nordestinos e pobres defendendo sua postura agressiva e pouco diplomática. Como a senhora avalia esse panorama?

Ireuda Silva – O Presidente deve ter uma postura que todos os brasileiros esperam, trabalhar em prol de todas as pessoas, independentemente de cor, raça, religião, região do país e outros fatores.

 

CN – Qual sua avaliação sobre os nossos representantes no Senado e na Câmara?

Ireuda Silva – Infelizmente ainda não temos uma grande representatividade no Congresso pois embora seja um estado majoritariamente formado por negros e pardos, esse cenário não se reflete no número de senadores e deputados. Temos também uma representatividade feminina que ainda é relativamente baixa. É preciso ter força, raça em uma luta justa para mudar esse cenário.WhatsApp Image 2019-11-20 at 08.53.47

CN – Quais as personagens negras que merecem suas honrarias e ou conseguiram conquistar a sua admiração e respeito?

Ireuda Silva – Temos como exemplo a Maria Felipa, que ajudou a lutar pela independência do Brasil. Na Câmara de Salvador, temos um prêmio concedidos a mulheres negras com seu nome. Podemos citar ainda Dandara, que lutou contra o sistema escravocrata no século XVII; Maria Firmina dos Reis, a primeira escritora brasileira; Antonieta de Barros, a primeira deputada estadual negra do Brasil, no início do século passado.

CN – Há quanto tempo a senhora é vereadora, e o que a levou a ingressar na vida pública?

Ireuda Silva – Sou vereadora de primeiro mandato, entrei na política com o objetivo de contribuir para uma sociedade mais justa.

CN – Qual sua proposta de trabalho?

Ireuda Silva – Minha principal proposta é trabalhar por Salvador tendo como minhas principais bandeiras a igualdade racial, a valorização da mulher e o combate à violência doméstica e familiar, além de lutar diariamente pelo social como um todo.

CN – Quais os maiores desafios que tem enfrentado?

Ireuda Silva – Meus desafios são diários e se iniciaram a partir do meu nascimento, por ser mulher e negra, que busca a todo momento trabalhar pela cidade e pelos mais necessitados.