Acervo Cultne completa 40 anos de registros da história negra do Brasil


Acervo está disponível na internet, com vídeos raros que mostram a relevância da população preta para a constituição nacional

Júlia Vitória

Os livros didáticos da História do Brasil, não abriram o espaço suficiente para a história negra brasileira, focando apenas na escravidão e deixando a outra parte da esquecida com o tempo. 

Nomes como Lélia Gonzáles, Ângela Davis e Abdias de Nascimento são reconhecidos pela comunidade negra. Foram líderes que lutaram contra o racismo, pelos direitos e fizeram diferença na história Brasileira e mundial, mas que ainda seguem desconhecidos por parte dos brasileiros.

Era 1980, enquanto a luta e a movimentação contra o racismo estava acontecendo no país também surgiu o Movimento Unificado Negro (MNU). Dez anos antes dois grupos registraram em vídeo a evolução negra desenvolvida no Brasil, mas longe das grandes mídias surgiram Enúgbarijo Comunicações e Cor da Pele Produção e Vídeo, que focaram em registrar a efervescência da época.  Com esses conteúdos captados pelas produtoras surgiu a Cultune (o Acervo de Cultura Negra).

Em 1950, as famílias negras ainda sentiam o resquício na escravidão. Sendo o primeiro da família a se formar em uma faculdade,  o engenheiro Filó Filho, vivenciou o a  falta de educação e o espaço limitado que tinha os negros.  “Fui o primeiro engenheiro formado da minha família, isso porque meus pais conseguiram bancar meus estudos”. Ele teve uma formação diferenciada dos demais jovens negros. Com acesso a livros música, olhava as revistas negras americanas e pensava como eles estavam em um patamar diferente do Brasil.

Aos 24 anos, querendo executar ações para sua comunidade, filó decidiu se dedicar às questões negras. Ele deixou a engenharia e focou no marketing e audiovisual, no caminho encontrou Medeiros, Adauto e Birkbec que em projetos paralelos registraram tudo que tivesse relação com a comunidade negra brasileira. Sem pensar que seria uma referência para outra geração eles geraram um material ao longo das décadas.

Hoje é possível ver esses materiais gerados pelas produtoras na Cultune (o Acervo de Cultura Negra) entre os tesouros do acervo estão registradas passagem de Gilberto Gil e de Pelé pela África na época do centenário da abolição da escravidão no ano de 1988. Também há no acervo o primeiro encontro de mulheres negras realizado em Valença, no interior do Rio de Janeiro. 

Há diversas jóias no acervo, incluindo um registro da vinda de Nelson Mandela ao Rio de Janeiro em 1991, onde encontrou alguns artistas negros na Praça da Apoteose. Contudo essa rica história está ameaçada em 2001 o acervo começou a ser digitalizado e em 2009 o material composto por três mil vídeos ganhou espaço virtual de acesso gratuito. Assim todos podem visitar esses momentos da história. 

Trinta por cento do material do acervo está na internet, os outros setenta por cento estão se perdendo devido ao tempo, pois são películas e fitas magnéticas. Caso não consigam preservar o material, terão que enviar para outros países que já demonstraram interesse em preservá-lo “É um tesouro histórico que está se perdendo, e sabemos que o Brasil é um país de sem memória”, Destaca Filó Filho. 

Ao mesmo tempo em que Filó luta para preservar o acervo, ele também passa o bastão para as novas gerações, que hoje podem recorrer à informação já que a época de Filó era proibida falar sobre o racismo. E por medo ela obrigado a falar que vivia em uma democracia racial.