Dia Universal do Palhaço: profissionais falam sobre seu amor pela profissão e a experiência transformadora


Cenário provocado pela pandemia tornou ainda mais difícil as atividades da profissão

Thais Paim

Em um ano com tantos desafios, perdas e incertezas, sem dúvida rir e fazer rir nunca foi tão importante. Ter a chance de saborear um bom e largo sorriso tem sido cada dia mais um privilégio e por isso que quem domina a arte de encantar e divertir a todos merece um olhar e atenção especial.

E a pergunta que está na memória da maioria de nós e provavelmente marcou a infância de muitos, dá uma grande pista do que é celebrado nesta quinta-feira: “Hoje tem marmelada? Tem, sim senhor!”. Em 10 de dezembro é comemorado o Dia Universal do Palhaço, uma das figuras mais marcantes da história das artes.

Personagem universal, que consegue arrancar gargalhadas de pessoas com diferentes idades, é a verdadeira representação da alegria. Com tamanha importância na história, é um símbolo do imaginário infantil, mas não se restringe apenas a ele.

O Dia do Palhaço é comemorado pela Companhia Abracadraba de São Paulo desde de 1981, mas foi apenas em 2017 que a data foi instituída pelo Poder Público através da Lei 13.561/17. Atualmente, o dia é celebrado em todo o país.

Mestres da alegria e suas histórias

Palhaço Andruxa no Festival Mixórdia, em Ilhéus (Ba). Foto: Vinicius Kaiowá

“Ser palhaço é amor”, é assim que Fábio Nascimento, o palhaço Andruxa, se refere ao seu ofício. A frase simples, mas profunda, reflete uma paixão e encantamento pela profissão.

E poderia ser diferente? Para Andruxa, não. “A experiência do contato com a palhaçaria na minha vida é essencial. Não me vejo outro ator, outra pessoa. Ela foi e é fundamental para que eu enxergue um mundo mais democrático e afetuoso. É o que me faz ter fé na humanidade”.

A última afirmação tem uma relação muito forte com os dias em que vivemos e simboliza o contraponto que a arte de ser palhaço traz para a sociedade: sorrisos em meio à muitas tristezas e dores.

Fábio, é de Ilhéus, uma cidade nas margens dos rios Cachoeira e Almada, na Bahia. Componente do grupo de teatro e circo Maktub, encontrou nessa profissão o desafio de se reconectar com uma essência pura, buscando expor suas fraquezas.

Questionado sobre qual seria o significado de ser palhaço, Andruxa responde com clareza, mas sem deixar de lado a emoção e admiração que carrega consigo:

“Significa milhares de coisas, lugares e sensações. Significa reconectar-se com sua essência interior, a sua criança. Abrir portas e gavetas que o tempo e a “adultice” fechou e te fez esquecer. É comunicar-se com este mundo interior e dialogar com o interior das outras pessoas, até sem elas perceberem. É fazer as pazes com suas dores e traumas. É amar-se para amar o outro”.

Para Andruxa, a imagem do que é um palhaço para o senso comum dificulta na oportunidade de trabalhos e a possibilidade diálogos mais profundos. Foto: BrutaFlow

Fábio falou também sobre como a falta de informação faz com as pessoas esperem um estereótipo e quando isso não ocorre, acabam não considerando esses profissionais como palhaços. Além disso, aproveitou a data para deixar um recado cheio de afeto e também de ampliação da visão que se tem do seu ofício: “A mensagem que deixo é que através das bobagens de uma palhaça, de um palhaço, existe uma pessoa que se cura e escolhe o que há de melhor nela para oferecer ao espectador. Que ser palhaço é muito além das expectativas e conhecimentos superficiais. Ser palhaço é ser feliz e aceitar-se. Ser palhaço é amor”.

Você pode acompanhar os trabalhos do palhaço Andruxa através do seu perfil do Instagram: @fabionascimentocoronel.

Palhaço Radiola, artista independente em Salvador (Ba). Foto: Arquivo pessoal

Se o papel do palhaço é levar alegria para todos, o riso contagiante do palhaço Radiola, Raphael Ruvenal, não deixa dúvidas de que essa missão é sempre cumprida com sucesso.

Artista independente, na cidade de Salvador, Raphael tem o amor pela profissão estampado no rosto e nas palavras. Questionado sobre o motivo de ter começado nesse ofício, ele responde: “A palhaçaria que me escolheu e eu escolhi ser palhaço”.

Tendo o seu primeiro contato com essa arte em 2015, a experiência se apresentou como uma oportunidade de transformação, “tive um encontro comigo mesmo”. Segundo ele, através da profissão foi possível aceitar suas fragilidades e defeitos.

O cenário da pandemia provocou grandes dificuldades em diversos setores e sem dúvidas a cultura foi um dos meios mais afetados. Profissionais como o palhaço Radiola tiveram suas atividades paralisadas e vivem dias preocupantes: “Estou sem trabalhar há 9 meses por causa da pandemia. Eu vivo da palhaçaria e por isso venho passando por esse processo árduo, sem poder fazer meus trabalhos. Porém, tenho trabalhando muito em casa, pesquisando e fazendo cursos”.

Raphael tem contado com o apoio de alguns amigos através da doação de cestas básicas, mas torce para que dias melhores possam chegar o mais breve possível. Apesar das preocupações e desafios desse período, não deixa o sorriso de lado ao torcer por um cenário melhor. A união de todos nesse momento crítico que vivemos é muito significativa e toda ajuda, seja ela qual for, é sempre bem-vinda.

Palhaço Radiola em apresentação nas ruas de Salvador. Foto: Arquivo pessoal

Tendo se apresentado em lugares diversos, sempre honrado esse ofício milenar, Radiola destaca o valor histórico do palhaço e diz que esses profissionais são “doutores da alegria”, ao ressaltar como acredita na missão de levar não só felicidade, mas a leveza e sensação de liberdade para as pessoas.

Se reinventar foi preciso e por isso que Raphael tem aproveitado o tempo de isolamento para ampliar os seus horizontes e criar novas formas de levar a arte de fazer sorrir para mais pessoas. O projeto de estimular a arte da palhaçaria em comunidades surgiu do desejo de conduzir alegria e reflexões para o povo.

“Acredito na arte que transforma e liberta as ideias, as imaginações. Eu sou outro ser depois da palhaçaria e quero levar para o mundo a fora minhas experiências artísticas. Que eu seja um veículo de transformação e reflexões. Atualmente, busco apoio para poder desenvolver esse projeto”, conclui Radiola.

Para saber mais sobre o trabalho do palhaço Radiola e também oferecer algum tipo de apoio, basta acessar o perfil do artista: @palhacoradiola ou entrar em contato através do número: (71) 9 8663-3361.

Saiba mais: O que é preciso para ingressar na carreira de palhaço? – Carvalho News