O mundo das HQs exige empenho e dedicação


Prazos apertados e uma rotina diária de várias horas são comuns na vida dos que trabalham na indústria dos quadrinhos. Segundo o colorista Carlos Lopez, o trabalho é puxado. “Começo cedo e o dia é bem corrido, os prazos são sempre bem curtos e exige um comprometimento total por parte do artista.  É normal colorir de 4 a 5 paginas por dia, quadro por quadro. Ao contrario do que muita gente pensa o computador não faz nada sozinho, não existe um botão mágico que a gente aperta e pronto, tudo fica colorido na cor certa, pelo contrario, o processo é quase artesanal. Cada quadrinho de uma pagina envolve trabalho duro, quadro por quadro, personagem por personagem, detalhe por detalhe”, ressalta.

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Silverhawks, José Luiz cores: Carlos Lopez

Se adequar aos prazos e manter a qualidade na arte são, segundo o design Rafael Oliveira, o grande desafio. ” Isso, algumas vezes, acaba gerando estresse. Mas claro, tem seus momentos de diversão”, revela.  Ele acredita que cada artista tenha sua maneira de se divertir quando está desenhando. “Eu me divirto fazendo detalhes de cenários”, garante.

O arte-finalista José Wilson Magalhães acredita que os trabalhos cômicos, com um ótimo prazo e preço justo, podem ser sim só uma diversão. Entretanto, na maioria das vezes, mesmo num projeto prazeroso temos espinhos pelo caminho. “É alguma correção pedida pelo editor, prazo curto que nos faz trabalhar mais rápido sob estresse, internet ou energia que caem de vez em quando e outras coisas que acontecem, como em qualquer trabalho”, minimiza. O artista defende que  trabalhar no que gosta, torna o ofício muito prazeroso. ” Principalmente, quando encontro os leitores e fãs da minha arte, principalmente as crianças, para quem eu adoro trabalhar. Meu filho Pedro Henrique, de 9 anos, poe exemplo, é meu maior fã, e a minha mulher Carla, minha maior apoiadora. Ver o sorriso e o brilho nos olhos das crianças quando autografo as publicações ou originais que produzi, não tem preço”, derrete-se.

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Liga da Justiça arte: Marcio Fiorito

DC e Marvel Comics são as grandes referencias mundiais em quadrinhos. Para Lopez é uma grande satisfação trabalhar na Marvel. “O processo é difícil, os prazos são sempre muito apertados, mas vale pena. Parece contraditório. Sinto mais segurança trabalhando em grandes editoras do que nas menores. Acredito que, quando uma editora desse porte lhe passa um trabalho, é porque ela confia em você e na sua capacidade de criação. Tenho mais liberdade de criação nas editoras grandes do que nas menores”, justifica o colorista.

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Elyan Lopes   Foto: divulgação

Magalhães atuou na DC Comics e posteriormente na Marvel. “Em 2006, tive a oportunidade de trabalhar em parceria com o desenhista Renato Guedes produzindo as revistas Omac, Supergirl, Action Comics, Superman, Arqueiro Verde e Canário Negro para a DC Comics. Depois fomos para a Marvel produzir Wolverine e Vingadores, até 2012. Foi uma ótima experiência onde aprendi muito e tive o meu trabalho reconhecido”, comemora o arte-finalista.

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Como acontece em outras categorias, os artistas dos quadrinhos também lidam com baixas remunerações e crises financeiras. Na opinião de Magalhães,  os valores pagos a esses profissionais em nosso país são bem inferiores em comparação com os dos Estados Unidos e Europa. “Para ser bem remunerado com quadrinhos no Brasil, o profissional tem que ter algum trabalho autoral com uma grande editora, ou produzir algum trabalho grande para ter um bom salário, ou vários trabalhos pequenos, ou então trabalhar para as editoras estrangeiras”, afirma.

De acordo com Fiorito, nas grandes editoras, a remuneração é o suficiente para que se viva de forma razoável. Mas muitas editoras pequenas ainda pagam pouco a seus artistas, tornando o início de carreira uma época meio turbulenta pra quem está entrando no mercado. “O grande diferencial é o paradigma de trabalhar como freelancer. Você é um empreendedor autônomo. Não possui grandes garantias trabalhistas por conta disso. Em compensação, existe a chance de ganhar notoriedade e reconhecimento, o que se transforma mais tarde em remuneração”, aconselha o quadrinista.

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Capitão Red, Elya Lopes

Uma pergunta paira sobre a cabeça de muitos leitores. Por que os super heróis nacionais não obtém o mesmo sucesso que os estrangeiros? Fiorito afirma que há dois motivos pra isso. O primeiro, segundo ele, seria a falta de identidade nacional única que permita que o mesmo personagem faça sucesso de norte a sul do país. “O Brasil é um país muito plural e muito rico em culturas diferentes. Isso, ao mesmo tempo que nos traz muitos benefícios, também traz uma dificuldade de nos identificarmos como brasileiros. Somemos a isso uma grande descrença com figuras de autoridade, como políticos por exemplo, e é difícil crer que alguém seria idôneo e filantropo o suficiente para ajudar as pessoas, ao invés de se beneficiar disso”, esclarece.

O outro motivo, de acordo com o quadrinista,  é simplesmente a falta de grandes investimentos em um projeto como esse. “Existem muitas iniciativas autorais, mas essas não possuem o alcance necessário, nem a segurança financeira, para criar e manter um personagem novo no mercado até que ele efetivamente se popularize. Talvez com mais investimentos das grandes editoras isso fosse possível. Mas também não dá para simplesmente copiar materiais existentes. É preciso entender o que torna um herói “brasileiro” e trabalhar a partir disso”, afima Fiorito.

Magalhães defende que no Brasil valorizam mais a cultura lá de fora, e a maioria dos artistas se inspiram nos heróis estrangeiros, se esquecendo das nossas raízes. “Acredito que aos poucos esse conceito possa mudar e surgirão mais heróis inspirados na nossa realidade. Temos muito potencial para isso”, alerta.

O colorista Lopes  acredita que o quadrinho nacional de heróis ainda esta se encontrando. “É difícil competir com tantos personagens famosos que vem de fora. Porém, nós temos alguns dos melhores profissionais do mundo, gente de peso! Atualmente tem muita gente publicando material autoral no Brasil. Eu tenho certeza que surgirá coisas boas a partir daí”, afirma esperançoso.

O design Rafael Oliveira também aposta na valorização dos heróis nacionais. “O importante é continuarmos criando nossos heróis seguindo a nossa cultura e folclore. Acredito que, em breve, estaremos lendo boas hqs de heróis nacionais”, acredita.

A vida de quem atua no universo das HQs não é muito diferente do das demais profissões. São necessários muito esforço de criatividade para lançar novos projetos. Elyan Lopes já tem alguns em andamento ” alguns de meus lançamentos serão: Capitão R.E.D #2 em produção, uma nova visão de Capitão R.E.D em pré-produção e uma heroína que está em também pré-produção“.