Pontífice quer mais rigor contra padres acusados de abuso sexual


O papa Francisco anunciou, nesta quinta-feira, que um religioso efetivamente condenado por abuso sexual contra um menor de idade não poderá apresentar recurso e jamais terá a graça concedida. O pontífice fez este anúncio ao receber os membros da Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores, organismo criado por ele há quatro anos para trabalhar pela educação e prevenção de abusos dentro Igreja Católica.

Francisco, que tinha um discurso escrito, deixou o protocolo de lado para falar de improviso sobre algumas das preocupações e acusações de atraso que surgiram sobre como a Igreja está enfrentando o problema e reconheceu que existe lentidão na hora de analisar os muitos casos que chegam.

Segundo o papa, os atrasos se devem a dois fatores: falta de pessoal e os vários pedidos de recurso. “Os advogados trabalham para tentar diminuir a pena, porque é disso que os advogados vivem”, explicou o pontífice, lembrando que então todos os aspectos legais são analisados novamente, provocando mais atraso.

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Papa Francisco: mais rigor contra abusos sexual envolvendo sacerdotes Foto: divulgação

Diante disso, Francisco anunciou que está trabalhando para que quando um abuso for provado, isso será suficiente para não admitir recurso.”Se há provas, ponto. (A sentença) é definitiva”, declarou.

Para Francisco, uma pessoa que comete um abuso é “doente” e não pode ser perdoada porque pode voltar a cometer o mesmo crime dentro de pouco tempo. “Temos que botar na cabeça que é uma doença”, afirmou ele, reiterando a “tolerância zero contra os abusos”.

Durante o seu discurso, o papa citou o árduo trabalho da Comissão e disse que a Igreja demorou a “tomar consciência” sobre este problema. Entre as pessoas que ouviram as palavras de Francisco estavam o inglês Peter Saunders e a irlandesa Marie Collins, que sofreram abusos sexuais de padres durante a infância.

 

Livro conta calvário de vítima de padre pedofilo 40 anos depois, com aval do papa


“Mon Père, je vous pardonne” (Padre, eu te perdoo), da editora Philippe Rey, publicado na quinta-feira, foi escrito por um ex-monge, atualmente casado e pai de seis filhos.

Daniel Pittet, 57 anos, morador do cantão suíço de Friburgo, revela que semanalmente, durante quatro anos, foi violentado por um padre na Suíça. Mais de 40 anos depois, Pittet conta seu calvário e sua luta pela verdade em sua publicação com prólogo do papa Francisco.

Francisco, com um gesto inédito, aceitou escrever o prólogo de seu livro e destacou que “testemunhos como o seu lançam luz sobre uma zona terrível de sombra na vida da Igreja”, abalada por vários escândalos de pedofilia.

“Como pode um padre, a serviço de Cristo e de sua Igreja, chegar a causar tanta dor?”, escreveu o papa após recordar que algumas vítimas chegaram a se suicidar.livro daniel

“Estas mortes pesam no meu coração, na minha consciência e na de toda a Igreja. Às famílias envio meus sentimentos de amor e de dor, e, humildemente, peço perdão”, destacou.

O autor descreve os abusos que sofreu entre 1968 e 1972 – dos 9 aos 13 anos – pelo padre Joël Allaz, um suíço da ordem dos capuchinhos.

Pittet sofreu quase “200 atos de violação”, no silêncio de um convento, segundo conta em entrevista à AFP. Mas basta apenas uma violação “para destruir a vida de uma pessoa”. E Daniel Pittet calcula em “mais de 100” as vítimas prováveis do padre Joël.

Somente uma minoria ficou conhecida. “Para uma vítima de violência é muito difícil falar”, diz Pittet, que sofreu de depressão e outras doenças.

 

“Falta de provas”

Daniel Pittet esperou quase 20 anos antes de denunciar o padre Joël Allaz à justiça eclesiástica, depois de ouvir sobre uma nova vítima. O sacerdote foi transferido imediatamente para a França, a uma diocese de Grenoble (leste).

Em 2003, após novas suspeitas, o padre Allaz foi transferido para a irmandade dos capuchinhos de Bron, perto de Lyon (leste), donde dirigia um “serviço administrativo sem ministério”.

Mas foi necessário esperar novas revelações para que a polícia iniciasse uma investigação. Em 2008 eram computados 24 casos de vítimas de abuso sexual – a maioria prescritos – cometidos entre 1958 e 1995 na Suíça e na França.

Joël Allaz foi condenado em dezembro de 2011 a uma pena de dois anos de prisão com suspensão condicional da sentença, após um julgamento em que duas vítimas se constituíram a parte civil.

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Daniel Pittet entrega ao papa Francisco um exemplar de seu o livro (fotos: Divulgação)

Daniel Pittet foi reconhecido como uma vítima pela diocese de Friburgo e pela congregação dos capuchinhos. Mas a justiça da Igreja não condenou o agressor. Uma investigação eclesiástica aberta em 2002 em Grenoble foi fechada por “falta de provas”.

O padre “nunca foi reduzido ao estado laical”, lamenta Pittet. O capuchinho, agora com 76 anos, continua vivendo na Suíça. “Me disseram que ele está recebendo ajuda, espero que esteja certo. Mas pode sair do convento”, conta a vítima, convencido de que um “pedófilo continua sendo pedófilo por toda a vida”.

O agressor concordou em falar em julho de 2016 em uma entrevista publicada no epílogo do livro de Pittet. Joël Allaz reconhece ser “este pedófilo monstruoso que deixou uma série de vítimas”, mas garante que não tem mais “este tipo de impulso”.

Daniel Pittet o encontrou novamente em novembro do ano passado. “Não falamos de pedofilia. Não me pediu perdão, mas já havia feito isto em uma carta”, conta sobre o homem que, segundo ele, “nunca deveria ter sido padre”.

Atualmente, este católico comprometido fala “por todos aqueles que não poderão falar jamais”. Não culpa a Igreja – embora critique sua “ingenuidade” – por uma praga que pode ocorrer “em todas as famílias”. “Poderia ter sido meu tio, foi um padre”.